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Você acabou de adentrar no mais íntimo do meu ser, na parte onde a poesia reina, onde o instinto poético que me foi presenteado de nascença, me fez exprimir os mais variados sentimentos, onde toda fúria e amor se mesclaram concedendo asas à minha imaginação para combinar cada vernáculo e construir tudo que reside aqui. Aproveita e partilha desse ímpeto...


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Topa Tudo por Dinheiro


Jéssica toma o café para mais um dia enfadonho de escola. Procura seu irmão para se despedir, mas, como na maioria dos dias, já se mandou para o trabalho. Ela pega o ônibus maltratado e depredado de sempre. Enquanto espera o demorado percurso, sonha como tudo em sua vida poderia ser diferente. Entra na sala e não tem ninguém para trocar confissões ou impressões sobre o menino ao lado ou sobre a banda que foi lançada. Olha para os lados e apenas meninas ricas e metidas. Nenhuma nunca lhe deu chance de mostrar o quanto poderia ser legal, apenas porque nasceram em berço dourado sempre a olhavam com desdém. Prometia a si mesma que um dia ainda calaria a boca de todas elas, mostraria que era alguém de valor. Sentia-se diminuída, pois apenas conseguia estudar numa escola de alto nível graças ao minguado dinheiro de seu irmão mais velho, Eduardo.
Eduardo trabalha duro dirigindo o carro de seu patrão, nunca consegue descansar por mais de cinco minutos, sempre seu chefe o dá ordens e mais ordens a serem cumpridas. Não tem tempo para pensar em nada além do trabalho, todos os dias esse é o seu mundo e quando chega em casa, nada consegue fazer além de deitar e dormir.
Eles vivem numa pequena vila e nem podem imaginar quanto suas vidas simples iriam mudar daqui pra frente. A grande mudança vem em forma de uma carta que chega lacrada com cera e uma marca feita com um anel de selar. Estranham o fato do desuso dessa antiquíssima prática que haviam visto apenas em filmes velhos repetidos que teimam em passar à tarde na TV.
Chegam a segurar a carta por algum tempo, a olham como se parecesse uma obra de cunho alienígena, até que Eduardo arranca a carta da mão da irmã e querendo demonstrar controle a lê em voz alta.
- Eduardo Dias San Martín e Jéssica Dias San Martín, por favor, comparecer ao funeral de Ricardo Gonçalves San Martín para tratar sobre questões relacionadas à sua herança, já que ele não deixou descendente ou qualquer outro parente. As passagens estão inclusas e o vôo está marcado para o dia 17 de Novembro.
- Meu Deus Duda, esse não é nosso tio milionário dono de uma rede de supermercados?
- É ele sim. – Eduardo respondeu bem menos empolgado que a irmã, temia por ela. Parecia tão frágil, principalmente depois do acidente. Adorava quando ela o chamava de Duda, fazia com que lembrasse do pai. Seu pai que sempre fora seu herói, chegava em casa tarde da noite, Jéssica quase sempre já estava dormindo, era muito pequena, mas ele não, ficava acordado a espera. Roberto era cirurgião-dentista, adorava a profissão, dava muitos plantões e quase sempre estava cansado, mas as poucos horas que passava com a mulher e os filhos eram só deles, se divertiam e se amavam muito. Roberto chegava e logo abria a porta do quarto de Duda, sussurrando para não acordar o filho, sempre a mesma frase. Te amo muito Duda, boa noite, juízo filho, tenho muito orgulho de você. Duda com os olhos fechados, fingia estar dormindo, ficava com vergonha, afinal já era quase um adolescente. Mas a verdade era que só conseguia dormir ao ouvir a voz forte e acalentadora do pai. Sofrera tanto, quase sempre sozinho, Jéssica era tão pequena...
- Temos que nos apressar então, já é amanhã! – fala abruptamente Jéssica, interrompendo os pensamentos do irmão. - Temos que arrumar nossas coisas e pegar o trem até o aeroporto amanhã cedo.
- Não acho que deveríamos aceitar. Papai não gostava dele e nos pediu para ficar longe, você acha que vale a pena deixar o que temos aqui para ir atrás de um homem que nem conhecemos. Nossos pais não aprovariam isso.
- Dinheiro nunca é ruim, podemos investir nos nossos estudos e em outras coisas mais. Vamos, por favor, eu quero muito ir, prometo que analisamos tudo e qualquer coisa que não nos agrade não aceitamos e voltamos.
Eduardo olha desconfiado, mas termina aceitando, Jéssica sempre conseguia tudo com seu jeito meigo. Devido ao sinal de sim de Eduardo, ela pula o abraçando com enorme felicidade.
- Muito obrigado meu irmão por nos dar essa oportunidade, você vai ver nossa vida vai mudar para melhor.
Os dois são bem jovens. Eduardo desde muito cedo teve que aprender a tomar as rédeas de tudo e a exercer o papel de pai e mãe de Jéssica. Seus pais morreram num acidente de carro e como não tinham nenhum parente próximo Eduardo foi obrigado a parar os estudos. Sendo o irmão mais velho arrumou um emprego e a sustentou. Ela sempre foi como uma filha para ele e o pouco de atenção que ele podia dar a alguém, reservava para ela.
Eles arrumam suas malas e se deitam na cama, não conseguem dormir de ansiedade. Jéssica pensando em toda a fortuna que eles poderão ganhar e Eduardo com grande medo do que virá, nunca se habituou bem a mudanças, principalmente depois da maior mudança que marcou suas vidas.
- Pronto para a nossa grande aventura maninho? - Jéssica estava com um sorriso encantadoramente grande.
- Não gosto de mudanças inconsequentes, espero não me arrepender em ter aceitado essa maluquice.
- Você não vai se arrepender mano, afinal seremos milionários.
Eduardo faz um sorriso de ironia, mas prefere ficar calado, queria que a irmã criasse juízo e se contentasse com o pouco que eles têm agora. Jéssica nunca concordou com as condições em que viviam. Já havia dito coisas dolorosas a Eduardo que se esforçava ao máximo em satisfazer as luxúrias da irmã para tentar compensar a falta de tempo para participar de sua vida. A irmã pedia desculpa logo em seguida, como se pudesse voltar atrás com as palavras ditas. Queria sempre dar a Jéssica a vida que seus pais teriam dado caso estivessem vivos. Isso o fazia sentir culpado, pois, por mais que ele se esforçasse nunca sobrava dinheiro para nada.
Nunca haviam viajado de avião. Eduardo fica assustado e fecha os olhos ao decolar. Para Jéssica tudo é uma novidade seguida da outra, ela adora tudo e mal pode esperar pelo que virá.
Chegam ao aeroporto e quando descem um chofer numa grande e luxuosa limusine os espera. Jéssica abraça o irmão que tenta também demonstrar alegria, mas se encontra totalmente tenso com a situação.
- Duda você viu? Isso tudo será nosso – comenta eufórica - Quanta felicidade!
- Você não deve contar com as coisas antes de se concretizarem Jéssica, vamos esperar e ver o que irá acontecer.
- Deixa de ser estraga-prazer, você tem medo que eu te esqueça irmãozinho? Se for isso nem pensa, você sempre será meu irmão predileto – diz Jéssica com um sorriso maroto.
- Lógico que não é isso, você não cria juízo nunca mesmo. – Eduardo balança a cabeça descrente.
Eles chegam a mansão, que com certeza é a maior residência que já viram. Os portões são de um aço envelhecido e ostenta um enorme brasão. Vão adentrando pelo gigante jardim que separa os portões da frente da entrada da mansão.
Na entrada da casa estão todos os funcionários que são tantos que nenhum dos dois consegue contar ao certo.
O chofer abre a porta do carro, os dois são recepcionados pelos empregados que parecem todos muito simpáticos.
O mordomo fala com um tom de enorme distinção e cortesia.
- Creio que vocês deveriam descansar senhores, vou mostrar seus quartos e amanhã vocês irão ao enterro do senhor Ricardo.
Cada um é deixado em um quarto. Eduardo se assusta com o tamanho e começa a olhar bem cuidadosamente os objetos.
Jéssica grita histericamente e pula na cama como se fosse uma cama de elástico.
Eles adormecem na cama mais confortável que já dormiram e logo pela manhã recebem um requintado café-da-manhã na cama. Eduardo come pouco, como todas as vezes gostava de manter hábitos saudáveis, diferente de Jéssica que era uma devoradora insana.
Um conjunto de roupas é colocado pelas camareiras. Eduardo sente uma coceira incontrolável ao usar o terno que lhe fora dado, devido à falta de costume em utilizar trajes desse tipo.
Jéssica coloca um vestido lindo que para ela só tinha um defeito, a cor negra. Bem que poderia ser um rosa ou um roxo.Eles vão para a limusine e são encaminhados para o funeral. Lá acompanham o cortejo fúnebre que curiosamente conta com poucas pessoas.
Jéssica se volta para uma das camareiras.
- Meu tio não tinha muitos amigos não era?
- Seu tio era um homem de negócios, sua vida era o trabalho, por isso seus maiores e únicos amigos eram seus empregados. Ele se dedicou sempre aos supermercados e nunca teve filhos nem esposa.
- Sério? - Jéssica estava indignada, achando quase impossível um homem rico como ele nunca ter casado.
- Sim, foi isso que aconteceu.
Eles voltam para mansão depois que a última pá de areia havia coberto o caixão sinistramente exuberante de Ricardo Gonçalves San Mártin.
Logo cedo Ricardo sempre almejou riqueza e separou-se de seu irmão, foi em busca do grande sonho, achar uma mina de ouro. Após dois longos anos abrindo todo centímetro de terras que encontrava, desistiu e foi para as ruas se aventurar. No início ele chegou a passar fome, mas com sua habilidade em ganhar dinheiro, foi multiplicando cada centavo que ganhava trabalhando como guia turístico, engraxando sapatos e os pequenos trabalhos que apareciam. Ele já possuía uma banca de frutas que virou uma mercearia, em seguida um supermercado e finalmente viraram a cadeia Ricardo de supermercados que se tornou a maior do país. Durante esse tempo Ricardo trabalhava 16 horas por dia e nada mais pensava além de seu império. Foi assim até sua morte. Chegou a desobedecer a ordens médicas, passando a trabalhar numa cadeira de rodas devido à um mal súbito.
Os dois irmãos são chamados para um cômodo em que todos os objetos são confeccionados em ouro, o salão principal ou sala dourada. Lá um homem de terno preto os aguarda com uma maleta também preta sobre uma mesa. Ele começa a falar com uma significativa dose de eloquência, que deixava Eduardo a ver navios.
- Eu sou o responsável pelo cumprimento do testamento do De cujos Ricardo Gonçalves San Martín. Ele deixou um testamento lacrado que apenas poderá ser aberto após a assinatura de um contrato que os vinculará ao cumprimento das seguintes cláusulas que estiverem contidas no testamento.
Eduardo não se contém.
- Me desculpa interromper, me corriga se estiver errado, teremos que assinar por uma coisa que não sabemos para onde vai nos levar? Pode haver qualquer coisa nesse testamento.
- Sim, pode haver qualquer coisa, as condições impostas são essas, vocês apenas saberão o que está dentro do testamento se assinarem o contrato.
Eduardo totalmente indignado não tem dúvidas.
- Eu não assinarei, não sou louco em fazer isso.
Jéssica desesperada implora para que o irmão assine.
- Você não pode me negar a oportunidade de ter tudo o que eu sempre sonhei, por favor, assine esse contrato.
Eduardo no primeiro momento tenta ignorar os pedidos da irmã, mas contrariado termina assinando o contrato.
- Pronto, agora assinei, o que existe dentro da porcaria desse testamento?
O homem o abre e começa a ler em voz alta.
- Em meus últimos instantes de vida, me declaro totalmente são e apto a escolher o destino de meus bens. Deixarei-os para Eduardo San Martin ou Jéssica San Martín, apenas para um deles, a decisão será tomada por ambos sob as seguintes condições:
1 - Ambos terão um bracelete amarrado.
2 - Cada bracelete conterá uma toxina mortal que se injetada na corrente sanguínea levará a morte em alguns minutos.
3 - Cada bracelete vai conter um botão que se apertado acionará o mecanismo de injeção da toxina no outro.
4 - Quem sobreviver após 24 horas da abertura do testamento, será declarado o vencedor e terá toda a minha herança.
5 - Caso nenhum dos dois acione o botão estarão deserdados e liberados após o teste.
6 - Os dois terão que estar separados, em localidades diferentes e verão tudo o que o poder do dinheiro poderá dar a quem vencer o desafio.
Boa sorte, Ricardo Gonçalves San Martín
Eduardo extremamente contrariado grita.
- Eu não irei cumprir esse acordo. Isso é uma loucura!
- Creio que o senhor assinou o contrato não foi?
- Assinei, mas como poderia imaginar que conteria algo desse porte?
- Não posso fazer mais nada, o senhor assinou por vontade própria, em nenhum momento o coagimos para tal.
Eduardo aceita pesarosamente e tenta tranquilizar Jéssica que se encontra muito nervosa.
- Maninha calma que são apenas 24 horas. Logo estaremos juntos e vamos embora daqui. E como tinha no próprio testamento, não somos obrigados a apertar nada, nem ficar com nada. Que tal tentarmos aproveitar, afinal somos ricos por um dia! - Eduardo fala com tanta convicção para consolar a irmã que estranha o timbre da própria voz. Pede mentalmente que consiga convencer a si próprio, que tudo acabará bem.
Jéssica apenas balança a cabeça afirmando que sim, sentindo-se culpada por colocá-lo naquela situação.
O bracelete é amarrado no braço esquerdo de cada, ele possui um grande botão vermelho em meio a uma tela sensível ao toque. Cada um é colocado num carro que seguem por caminhos distintos.
O chofer questiona o destino de Eduardo.
- Onde você gostaria de visitar? Pode ser qualquer lugar desejado.
Eduardo mesmo odiando a idéia de início, decide encarar aquele dia como um dia de descanso que nunca consegue tirar e escolhe um lugar que o fascina.
- Não quero ir pra longe, me leve para o autódromo. Quero dar uma volta num carro lá. É possível?
O chofer responde que sim e eles se encaminham ao lugar citado.
Jéssica é questionada da mesma forma.
- Eu quero ir para o shopping e comprar tudo o que eu sempre quis. Depois poderemos ficar com tudo?
- Não posso responder a essas questões.
Ela mantém a esperança que sim, afinal o que um velho morto poderia querer com coisas de mulher? Eles se dirigem ao destino proposto por Jéssica.
Já se passam uma hora do prazo quando Eduardo chega ao seu destino, lá o recebem e dão a opção de escolha do melhor carro de uma lista de 20 super esportivos.
- Eu quero a Lamborghini Diablo Murciélago - diz Eduardo que sempre foi apaixonado por carros, mas nunca pode ter nenhum e agora está tendo a oportunidade de dirigir um dos mais caros e desejados do mundo. Ainda não acredita, tenta manter os pés no chão até a chegada do veículo. Ouve um ronco de motor extremamente potente, quando olha para trás dá de cara com o carro mais lindo que ele já viu se encaminhando até ele como se estivesse em câmera lenta. Emociona-se enquanto o encarregado pelo autódromo comenta.
- Cuidado com esse carro, pois ele pode vir a ser seu. É melhor cuidar do seu futuro carro.
Eduardo sorri levemente envergonhado, mas não tem tanta certeza assim. Nota que até para entrar exige um procedimento todo especial. Liga e acelera timidamente no início, mas vai ganhando coragem a cada volta e já passa dos 200 km/h.
Jéssica nunca havia ido a um grande shopping e se entusiasma com o tamanho do lugar, antes apenas havia ido a pequenas galerias que havia em sua cidade. Sempre via na televisão as propagandas de grandes marcas, de estilistas famosos, mas nunca nem havia chegado perto de nada assim. Começa a entrar em todas as lojas e a escolher tudo de mais caro. Suas entradas nas lojas sempre exibem uma frase automática.
- Por favor, queria ver tudo o que há de mais caro na loja.
Ela compra desenfreadamente, tudo que vê, nem seleciona muito, compra roupas, sapatos, perfumes, jóias e tudo que se possa imaginar. Sente-se a dona do mundo, sente o poder correr dentro de suas veias. Uma sensação que nunca havia provado antes. Olha momentaneamente para o botão, mas repete que não irá ter coragem para tal.
Eduardo pensa na irmã e diminui a velocidade repentinamente, imagina o que ela estaria sentindo. Tenta imaginar onde ela estaria, crê que não deve ser difícil imaginar, deveria estar num shopping fazendo compras, pois esse era um dos maiores sonhos dela e uma das maiores reclamações. Sente um arrepio ao pensar que sua irmã poderia se encantar com o dinheiro e esquecê-lo. Acelera e continua “voando baixo” pelo circuito. Imagina-se como um corredor, sempre fora seu sonho quando moleque, mas depois de crescido, a fria realidade era que ele apenas pegava em carros no trabalho, quando dirigia para realizar as atribuições do chefe. Estaciona, desce do carro e pede agora para ir para a marina da cidade.
- O patrão não possui barcos, sempre achou perda de tempo, ele possui um iate que usa para alugar e conseguir mais dinheiro. Creio que está desocupado, iremos para lá agora. - informa o chofer.
Jéssica nem pensa em ir embora tão cedo do shopping, ainda existem muitas lojas para visitar. Abstrai tudo de sua mente e procura pensar apenas em que sapatos levar, caso fique em dúvida ela já pensa numa solução, levar todos.
- Que vida perfeita! – Pensa ela em voz alta, acaba se envergonhando, pois as vendedoras da loja sorriem contidamente. Ela fica tímida, mas procura impor sua temporária condição de milionária e manda buscar mais bolsas, frisando sempre querer as mais caras.
Eduardo chega ao cais e vê alguns barcos enormes, aponta o maior e pergunta:
- É aquele?
- Não. O iate está bem atrás dele.
Quando se afasta vê um iate gigante. Entra e se surpreende com tamanho luxo, nunca imaginou que houvessem tantas coisas dentro de um barco. Vai adentrando e vê de tudo, salão de jogos, sala de cinema, quartos muito requintados e tudo que se possa imaginar. Dirige-se à proa do barco e começa a admirar a beleza da natureza, fecha os olhos e sente o vento da brisa marítima tocar seu rosto. Sente uma paz e uma felicidade que há muito não sentia. Sua vida era o incessante trabalho e nunca restava dinheiro ou tempo para o divertimento. Faltam 12 horas para o fim do prazo, o dia se passa com muita rapidez. Um verdadeiro contraste, visto que o tempo sempre demorava a passar quando ele estava trabalhando, parecia uma eternidade. Agora uma hora se passava como num minuto, mal ele tem tempo para desfrutar de todas as novidades que aconteciam a sua volta.
Jéssica queria visitar outras lojas, queria comprar até cansar e aproveitar o dia para lavar a alma e acabar com o estoque de todas as lojas famosas. Ela continuou sua corrida contra o tempo para comprar mais e mais. Sentia uma alegria desmedida a cada compra que fazia, sentia que podia tudo e que agora sim era uma pessoa realmente importante. Queria que minhas colegas me vissem agora, o dinheiro que elas têm não chega nem perto dos milhões que herdarei. Todas elas iriam morrer de inveja.
Ela antes tão gentil, lembra de todos que a menosprezaram quando entrava em alguma loja e nenhum atendente sequer levantava para atendê-la, visto que quando alguém de alta estirpe chegava, todas se levantavam ao mesmo tempo, ofereciam cafezinhos e tudo o que de melhor a loja podia oferecer. Agora ela podia e exigia com toda veemência seus direitos, pois agora é mais rica que todos aqueles que roubavam as atenções. Jéssica parece transtornada, sua personalidade e atitudes foram totalmente mudadas pelo poder que está em suas mãos. Se aquele poder em menos de 24 horas havia a mudado dessa forma, o que poderia fazer a longo prazo?
Faltam 10 horas para o final do prazo, Eduardo procura aproveitar cada detalhe, porém tentando manter a consciência que aquilo não vai durar para sempre. Pede para ir para uma pousada. Ele descansa, admira a paisagem deitado em uma rede e se pergunta qual fora a última vez que havia se divertido. Começa a ver tudo o que perdeu para conseguir dinheiro e cuidar da irmã. Como queria ter tido tempo de namorar, de sair com amigos... Seus pais e sua irmã vêm a cabeça, reflete sobre a vida, quer muito ser rico assim como qualquer um, mas pensa que não teria coragem de fazer o que o tio havia proposto. Procura imaginar sua vida sem a irmã, com o dinheiro. Ele a ama demais, mas será que pela riqueza poderia fazer algo tão desprezível? Ele acredita que não...
Essas e outras perguntas invadem sua mente e não o deixam dormir. Ele lembra que amanhã o prazo terá terminado. Pensa no que vai acontecer, pensa tanto que termina adormecendo.
Jéssica se sente esgotada, mas exige o hotel mais luxuoso da cidade para dormir e “enche a boca” ao pedir a suíte presidencial. Lá ela esquece um pouco o cansaço e começa a gritar de felicidade. Liga para o serviço de quarto e pede tudo o que vê no cardápio.
- Por favor, aqui é da suíte presidencial e gostaria de pedir todos os pratos existentes em seu cardápio.
- Pois não senhora, logo levaremos ao seu quarto. - Responde a gentil atendente, como o faz para qualquer cliente rico que tenha dinheiro suficiente para repousar em tais aposentos.
Jéssica se deita e aguarda toda a comida. A campainha toca depois de alguns minutos, ela se surpreende com tamanha rapidez e chega a comparar com um serviço de fast-food.
- Pode entrar e arrume tudo, pois não irei aceitar comer se você não atentar todas as regras de etiqueta. – Ela não imaginava nem quais eram, mas não queria fazer feio e queria o tratamento que eles davam as maiores estrelas que ali freqüentavam.
Havia tanta comida que o enorme quarto ficou quase lotado dos mais variados pratos. Ela começa a escolher e come um pouco de todos até não suportar um único grão, se deita e rapidamente dorme.
Eduardo acorda com os primeiros raios de sol batendo em seu rosto. Levanta e pede o mesmo café que toma todos os dias. Faz seu desjejum totalmente irrequieto, faltam 2 horas pro final do prazo. Ele surta, se deita no chão num canto e começa a chorar, olha pro bracelete e pede forças a Deus para nem pensar em apertá-lo, mas o consola a certeza do amor pela irmã. Suas lágrimas não cessam um segundo e ele se martiriza num dilema imposto pela fortuna que poderia ganhar e o fato de apenas cogitar tal hipótese.
A derradeira hora chega e os braceletes dão um toque. Eduardo se apavora mais ainda, pois receia que sua irmã aperte ou que ele mesmo termine fazendo.
Jéssica nem ao menos se acorda, dorme tranquilamente e sonha com todos os dias de sua vida com tamanha riqueza e poder. Em seus sonhos apenas vê muito dinheiro e grandes festas.
Eduardo acompanha cada minuto como se fosse o mais eterno de todos, aguarda que essa tortura acabe logo, mas ao mesmo tempo sente medo de não resistir.
Faltam 5 minutos e agora o alarme do bracelete dispara acordando Jéssica, ela tem a noção do quão pouco resta para o fim do prazo. Pensa rapidamente no que fazer, imagina sua vida como era antes, lembra da pobreza, no desprezo que as pessoas mostravam. Imagina agora a vida de seus sonhos, em todo dinheiro, roupas, jóias, pessoas ricas e famosas que ainda conheceria. Pensa que mais nunca teria a chance de possuir tanto dinheiro assim, que uma oportunidade dessas não se perde.
Eduardo olha pro relógio pela última vez, falta exatamente 1 minuto, coloca as mãos na cabeça, olha para o botão e sente medo do que acontecerá daqui pra frente, queria apenas voltar pra casa e que tudo voltasse a ser como antes.
Jéssica vê o botão. Eduardo não será tão burro ao ponto de não apertá-lo, sabe que nunca chegará nem perto de tanto dinheiro como poderá ter agora. Ele irá apertá-lo, a qualquer segundo.
- Me desculpa irmão. Diz para auto se consolar e talvez retirar a culpa subseqüente a esse ato.
Ela aperta o botão e sente prazer e uma profunda tristeza convivendo dentro de si paradoxalmente. Mas, não há mais o que fazer. Olha para o bracelete que exibe um vídeo de um homem velho sentado em uma cadeira de rodas motorizada.
- Eu sabia que a fortuna era muito importante pra você. Procurei informações sobre vocês antes de tomar essa decisão. Achava que seu irmão não seria capaz de apertar, mas nunca me surpreendi com o que as pessoas são capazes de fazer por dinheiro. Nunca tive amigos, pois sempre achei que as pessoas não são capazes de nutrir um sentimento sincero de amizade descompromissada, quando se tem muito dinheiro. Trabalhei muito na vida. Deixei de viver muitas coisas, pra dizer a verdade não vivi, trabalhei, mas não me arrependo e faria tudo novamente. Você acha mesmo que eu deixaria minha fortuna com um assassino que mataria seu próprio irmão por dinheiro? Santa ingenuidade! Agora a toxina vai penetrar em suas veias. Não resista, creio que se você resistir terá uma morte muito dolorosa. Recomendo que se deite e espere que em alguns instantes o fim chegue. Aconselho que reflita as escolhas que fez em sua vida e o quão longe foi capaz de chegar.
Jéssica grita desesperada, chora compulsivamente e pelos últimos segundos consegue enxergar a verdadeira finalidade da vida. Vê o quanto seu irmão a amava, ele não fora capaz de apertar e ela sim. Refletiu sobre tudo que ele havia feito por ela, a vida que desperdiçou trabalhando para sustentá-la, devido a isso nunca chegou a construir um relacionamento, não se divertiu, não aproveitou sua juventude. Pensou o quão mal agradecida sempre foi. Ela vê uma caneta e um papel e faz um último esforço para escrever seu único bilhete ao irmão.
“Duda, desculpe-me por nunca ter te agradecido por tudo que você fez até hoje, a vida não foi muito boa para gente, você nunca conseguiu fazer nada por minha causa. Perdoe-me por ter apertado. Até hoje achava que o dinheiro era tudo, não é. Quero muito que você...”
Termina abruptamente a carta e a deixa sem final, pois a morte é um cobrador que nunca espera e a caneta de seu punho vai de encontro ao chão.
Eduardo respira aliviado e vibra de alegria pensando que tudo está terminado e que voltará a ser como antes. O bracelete se abre, mas pisca ininterruptamente. Ele olha e lê uma mensagem. Parabéns você é o ganhador do desafio. Alvo eliminado. Não entende. Olha para trás e vê um homem numa cadeira de rodas entrar em seu quarto com o empregado do hotel trazendo várias malas. Ele o reconhece pelas velhas fotos, é seu Tio Ricardo.
- Tio o que o senhor está fazendo aqui? O senhor não estava morto?
- Você viu meu corpo?
- Não vi, mas todos choraram em seu enterro.
- Muito fácil forjar minha morte, muitos pensaram realmente que eu estava morto. Nunca acredite em algo que você não vê rapaz.
- Você enganou a mim e minha irmã. Como você pode ser tão desprezível?
- Você chama de desprezível o homem que o tornará milionário? O dinheiro é seu... Sua pobre irmã não resistiu e apertou o botão. Não suportou a pressão e eu havia programado o bracelete para envenenar quem o apertasse. Ela deixou um último bilhete que está aqui em cima da mesa. Nessas malas está toda a minha fortuna. Não estou morto, mas estou morrendo. Tenho poucos dias de vida, então vendi todos os meus bens e o estou entregando em dinheiro e ações para você dar-lhes o destino que quiser.
Eduardo sentia que essas palavras o atingiam como um soco no estômago.
- Por que eu estou vivo? O acordo não foi esse, era para eu estar morto e não ela.
- Você acha que lutei tanto para deixar uma assassina herdar meus bens? Eles agora ficarão em mãos merecedoras.
Eduardo sente uma enorme revolta dentro de si. Como ela, sua irmãzinha, chegou a concretizar tal coisa? E como Ricardo fora capaz de tramar tudo aquilo para que a maldita herança estivesse em mãos seguras, enquanto eles estavam sem segurança nenhuma, podendo morrer a qualquer momento? Sente vontade de acertá-lo, mas sua tristeza e decepção o impedem. Pega o bilhete e o lê, as lágrimas começam a tocar seu rosto que estampa em total desatino. Vê que a irmã não foi totalmente culpada, ela era jovem e imatura, mas pagou caro demais, com a vida por um erro que tantos cometem e saem ilesos.
- Felizmente, minha irmã nào assasinou ninguém, não vai levar mais esse peso, o único assassino aqui foi você. Está a beira da morte e vai morrer sem nunca ter sentido o amor, ter sido amado ou ter um amigo. Você está morto há muito mais tempo. Eu também não vivi minha vida, mas pelo menos ainda tenho chance. Não quero seu dinheiro manchado de sangue. Vivi até hoje sem ele e sou capaz de resistir.
- Você não pode fazer isso... Você foi o herdeiro que sempre sonhei, o filho que deveria ter tido. Não deixe minha herança ir para o governo. Não permita que tudo pelo que lutei tenha sido em vão.
Eduardo tem uma idéia e pensa em voltar atrás.
- Eu aceito sua herança. Eu posso fazer o que quiser com ela não é verdade?
- Sim, pode. O que você pretende?
- Dar um destino digno para ele...
Eduardo abre a janela da pousada, abre as malas e joga os dólares, ações e tudo o que de valor Ricardo conquistou.
O velho grita desesperado, caindo da sua cadeira de rodas tentando fazer algo para o impedir.
- Você não pode fazer isso comigo. Esse é o fruto do trabalho da minha vida. Pense bem e tente achar algum culpado além de você para o final de Jéssica. Não foi eu que a matei, ela cavou a própria sepultura. Se você tivesse tido mais tempo para educá-la melhor e não tivesse suprido sua falta com mimos, talvez tivesse se tornado uma pessoa com bases morais melhores.
- Agora sim. Seu esforço não valeu para nada. Adeus velho.
Eduardo entre os gritos desesperados de Ricardo admira com pesar a cena que as pessoas abaixo de sua janela protagonizam. Nunca esqueceria esse dia, mesmo depois de muitos anos, afinal foi dia da morte de uma inocente e hipnotizada garota, mais uma vítima do dinheiro. Mas, o que ficou marcado nitidamente em sua mente foi a impressionante e inesquecível cena que se seguiu. As pessoas embaixo se acotovelam como animais para juntar o máximo que podiam. Esmurram-se. Um homem agride uma senhora, carros batem e até uma mãe deixa de lado o carrinho com seu bebê para pegar sua parte.

Claudenor de Albuquerque
Comentários
29 Comentários

Comentário(s)

29 comentários:

Srta. Line disse...

Muito interessante seu conto. Nos faz rever alguns valores que às vezes chegam a passar despercebidos. Realmente pessoas são mais importantes que coisas e o amor é a maior riqueza que podemos ter na vida. Parabéns!!!

Aline

Black. disse...

Os seus contos são bons amigo...!
eu gosto deles... gosto de lêr eles...!
Você é bom nisso...! quando escrever mais um manda pra mim...;)
akele abraço..!

Claudenor disse...

Aline com certeza, hoje em dia as pessoas apenas dão valor as coisas materiais e esquecem os demais valores. Um grande abraço.

Claudenor disse...

Rafael muito obrigado pelos elogios, agora darei um pouquinho de tempo para fazer um conto, é muito trabalhoso rsrsrs vou começar outro creio que no próximo mês. Um grande abraço

Poeta Hei de Ser disse...

Amigo, o comentário saiu errado 2 vezes! Mas mesmo assim acho que deu para entender!
Um grande abraço, sucesso na escrita e ótimas inspirações!
André Anlub

Anônimo disse...

Nossa mt bom mesmo o conto, amei, me levou, sei la, a outra dimensao, to sem acreditar ate agora.. acho q nunca refleti tanto em minha vida..kkkk, seu conto me fez pensar em varias coisas ao mesmo tempo, uma mistura de sentimentos e emoçoes...10! AMEII! mts inspiraçoes p/ ti!

Dani Marine

Claudenor disse...

Muito obrigado pelos Elogios grande poeta André, vindo de você posso confiar que ficou bom sim o conto rsrsrs
grande abraço

Claudenor disse...

Dani muito obrigado por tantas palavras gentis. Espero ver mais visitas e comentários seus por aqui. grande abraço

Claudenor disse...

Minha gente se quiserem dar uma nova lida no conto, pois fiz algumas mudanças nele.

Vivenciar disse...

CARÍSSIMO, VIM PARABENIZAR - TE.
QUE O SUCESSO ESTEJA PRESENTE SEMPRE...

ABRAÇO
COMENDADORA NICE VENTURA

Claudenor disse...

Grande personalidade, que honra em te ter aqui em meu tão humilde blog. Espero ver-te aqui mais vezes. Um grande abraço e muito obrigado pelo apoio.

Juliana disse...

Ameeei, lindo conto, linda liçao de vida. Ao ler lembrei-me dos textos de Dan Brown, com os pensamentos postos em itálico. Adoro seus contos e seus poemas. Que Deus abençoe seu talento.

Claudenor disse...

Muito obrigado Juliana. Ainda bem que você captou minha mensagem. Grande abraço.

Cleiton disse...

Porra cara , vc escreve muito bem ...
Tem estilo,imaginação e muita técnica
Mais um conto que me faz lembrar muito Sartre
Vc tá de parabéns ... sou seu fã

Claudenor disse...

Cara muito obrigado de coração. Valeu aí pelos elogios e pela boa crítica. Você também é um grande escritor. Grande abraço

Lavis Santos disse...

Final estonteante, conto contagiante, sabe bem como prender o leitor. Adorei mesmo. Parabens e sucesso.

Anônimo disse...

Ahh e tb virei sua fa, li varias poesias suas e me identifiquei com muitas! Vc tem algum livro publicado?

Lavis Santos

Thiago_poetadoido disse...

Thiago Cardoso Sepriano: Claro e impactante como não podia deixar de ser. Sua essência, sensibilidade e sagacidade me surpreendem cada vez mais.
Realmente o ser humano foi substituído pelo ter humano e as pessoas se transformaram em medíocres represenções das coisas que possuem.


É uma honra tê-lo na P.D.A !

Bravo !

Claudenor disse...

Lavis eu ainda não tenho nenhum livro publicado. Muito obrigado por sua visita e por seu comentário. Um grande abraço

Claudenor disse...

Thiago muito obrigado por sua bondade em sua crítica. Adorei suas belas palavras que alegraram meu ego. É uma hora também fazer parte da P.D.A.
Grande abraço

Dhenova disse...

Muito bem escrito, Claudenor. Vais encadeando as ações, mostrando o caminho. Gostei muito. Talvez se o deixasse um pouco mais enxuto ficaria melhor ainda. Ao invés de mostrar tanto, quem sabe deixes algo para o leitor buscar nas entrelinhas... mas é só uma opinião minha.

Show teu espaço. Abração.

Claudenor disse...

Grande abraço e muito obrigado pela sua análise.
Espero ver sua visita aqui mais vezes.

Claudenor disse...

Já adotei suas dicas até onde eu vi. Grande abraço.

Marta Rodriguez disse...

Muito bom! Como gostei vou passar a te seguir! Me aguarde...rs Beijinhos.

Claudenor disse...

Muito obrigado! Confira as novidades. Grande abraço

dinaaciganinha disse...

Li de um fôlego só! É impressionante, bem escrito, e reflexivo, eu também faria como e
Eduardo, esse dinheiro maldito eu não o queria!

Parabéns!Vc escreve muito cara!

bjs no coração!

Claudenor disse...

Muito obrigado poetisa. Grande abraço por vir no meu pequeno espaço. Grande abraço

Cibele Oliveira disse...

Muito bom! Tem um cunho moral que nos faz refletir. Você deveria se aventurar nos romances. Se trabalhar mais nos personagens, esse seu conto daria um bom livro!
***
“O autor, em sua obra, deve ser como Deus no universo: onipresente e invisível”, citação da orelha do livro "Madame Bovary”, de Gustave Flaubert
***
Bjs

Claudenor disse...

Eu penso em fazer isso Cibele, quando tiver mais tempo irei tentar me aventurar em romances sim. É um sonho meu escrever um romance. Muito obrigado por sua presença aqui e por seu comentário. Estou desenvolvendo outro conto, mas estou sem tempo nenhum agora. Em breve estarei confeccionando-o.

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